Um blogue sobre livros e Literatura

Resenha – Retrato a preto e branco

Publicado originalmente no site ComUM.

Chega dia 15 de novembro, a todas as livrarias portuguesas, a já aclamada biografia de Steve Jobs, assinada pelo jornalista Walter Isaacson sobre a vida deste ‘Deus Geek’.


Existem duas maneiras básicas de se escrever uma biografia. A primeira delas, a mais tradicional, consiste em transformar uma série de entrevistas e depoimentos numa espécie de perfil jornalístico. Lá, estariam contidas todas as informações essenciais para a compreensão da personalidade e vida de uma determinada figura. A outra, de caráter mais arrojado, transforma estas mesmas entrevistas em pano de fundo para narrar (note-se a diferença do verbo ‘narrar’ para o verbo ‘informar’) a vida de uma pessoa, valendo-se da figura de um narrador em terceira pessoa omnisciente.

Por mais que queiramos ver, neste novo trabalho do jornalista americano Walter Isaacson, uma obra que jaz entre estes dois conceitos, percebemos que ela acaba por recair nas armadilhas básicas da primeira e mais tradicional maneira de escrever uma biografia e ficamos com a sensação de estarmos a ler um longo perfil historiográfico.

Poderíamos apontar, como fator determinante para algumas dessas falhas, a proximidade histórica com a personalidade e a tentativa de não confrontar ou irritar o biografado ainda vivo (aquando da escritura deste livro, Steve Jobs ainda era uma personalidade bastante atuante).

São nestas indecisões e lacunas que reside o livro Steve Jobs. Escrito forçosamente em tom jornalístico, Isaacson tenta realçar as qualidades do seu atual trabalho com todas as características próprias do jornalismo (a imparcialidade, o observador dos factos, a não atribuição de juízos de valor) e, ao mesmo tempo, impor um ritmo e dinâmica de um escritor de romances. Entretanto, logo percebemos que este conflito não pode durar tanto tempo e vemos o livro desandar numa história contada pelo ‘eu’.

São inúmeras as referências a si próprio (o jornalista): «Quando a mim me disseram…», «Disse-me certa vez», «Eu estava a caminhar com Jobs…». Essa inscrição da primeira pessoa na narrativa irrita, passadas algumas dezenas de páginas.

Mas nem só de falhas é feito este livro. A vida de Jobs, por si só, é atraente e preenche todas as características básicas do conceito bastante caro aos americanos do ‘self-made man’ (o que talvez explique um pouco da fascinação a esta personalidade): a entrega para adoção, a infância pobre e difícil dos pais, a obstinação em montar uma empresa, a ascensão e a glória, por fim. Cada história, minimamente atraente para ser contada, foi pesquisada e exposta por Isaacson. A vida de hacker, os conflitos de autoridade, a vida hippie, a peregrinação a um ashram indiano, está tudo exposto aos olhos dos leitores que até então conheciam Steve Jobs somente como o ‘Deus Geek’ dos computadores e produtos tecnológicos.

É certo que Steve Jobs, enquanto vivo, guardou imensa distância entre a vida profissional e a pessoal. Pouco se sabia sobre a sua infância, os seus amores e paixões. Mas o mais interessante é-nos dado a saber quando lemos a introdução do livro e descobrimos que foi o próprio Jobs que propôs a criação desta biografia. O antes recatado criador da Apple passou a querer uma vida pública? A explicação estava no diagnóstico de cancro nos pâncreas que havia sido feito.

Os conflitos com a Microsoft, de Bill Gates, são um dos pontos altos desta narrativa. Os diversos confrontos verbais que ensaiaram são detalhados com bastante avidez, como da vez em que Steve Jobs afirmou publicamente sobre Gates que este «seria um gajo muito mais aberto se alguma vez tivesse tomado ácidos ou ido para um ashram quando jovem». Ou, pior ainda, são as declarações sobre a aposentadoria de Bill Gates: «Basicamente Bill é pouco imaginativo e nunca inventou nada, e é por isso que acho que ele se sente mais à vontade agora na filantropia do que na tecnologia.»

Além das brigas, ficamos a conhecer também o campo de distorção da realidade de Steve Jobs. Este campo era uma percepção particular da realidade onde todas as leis universais não se aplicavam a Jobs, mas sim aos outros seres humanos. Uma visão que Jobs tinha de si mesmo que o ajudava a quebrar as barreiras existentes.

Irritante, porém, é a forma como a personalidade mesquinha e arrogante de Jobs é exposta na obra. Com uma obsessão quase compulsiva, a faceta rude e dominadora de Jobs é repetida à exaustão. Às vezes, frases inteiras são repetidas diversas vezes ao longo do mesmo capítulo, na tentativa de enfatizar uma característica de que já estamos mais do que cientes. Como, por exemplo, o perfecionismo que Jobs adquiriu do pai. Outro ponto de frustração aparece quando esperamos do jornalista o confronto direto com Steve Jobs sobre algumas questões polémicas da sua vida e o vemos simplesmente a eximir-se desta tarefa. Patente fica esta ideia quando nos é relatada a história das divisões das ações da Apple entre os funcionários em 1985.

Foi distribuído entre os altos funcionários e engenheiros da Apple uma preferência de compras de ações. Porém, amigos próximos de Jobs, que o ajudaram a fundar a Apple, mas que por alguma razão não se tornaram engenheiros ou grandes funcionários da cadeia de produção, foram completamente ignorados. Em nenhum momento vemos Isaacson interrogar Jobs sobre o porquê desta atitude.

O mito do visionário e revolucionário que mudou a forma como entendemos o mundo dos computadores, música, cinema de animação e interatividade não é esquecida e é então que percebemos o porquê desta obra. Steve Jobs realmente foi um homem brilhante que mudou para sempre o mundo das tecnologias e entendemos toda a razão de ser desta biografia dentro de um mercado editorial que a cada dia lançam biografias um tanto quanto contestáveis. Vale a pena a leitura para conhecer a face oculta de Jobs, mas não esperem, com isto, respostas a todas as dúvidas sobre quem foi o homem que fez de uma marca tecnológica um estilo de vida.

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